Malhação na gestação

É consenso entre especialistas que o exercício físico durante a gestação é indispensável: diminui asensação de inchaço e cansaço, garante peso saudável, aumenta o aproveitamento de nutrientes que chegam ao bebê e ajuda até na hora do parto --mais ainda se for natural.


Especialistas enfatizam que exercícios devem ser feitos sob supervisão médica e em ritmo mais moderado.

Entre as mulheres sedentárias, essas indicações são consensuais entre médicos.

A dúvida surge, entretanto, quando mulheres ativas querem continuar com a rotina habitual de exercícios intensos durante a gravidez.

Habituada com uma rotina de malhação intensa há 15 anos, a nutricionista Gabriela Zugliani, 30, não abriu mão do treino pesado durante a gravidez. Chegou até a se exercitar no mesmo dia do parto. "Treinei de manhã e marquei a cesária para a tarde." O bebê, garante Gabriela, nasceu lindo e saudável.

Ela reconhece que tanta atividade física causou estranhamento até no médico. "Ele ficou preocupado no começo, mas viu que estava tudo bem comigo e que eu não extrapolaria os limites do meu corpo e relaxou."

Patrícia Seixas, 29, fez aulas de spinning (ciclismo indoor) até os sete meses de gestação e continuou na musculação praticamente até a hora do parto. "Fui sentindo o limite do corpo e conversando com o médico. Sempre pratiquei atividades físicas, por isso teria estranhado se tivesse ficado parada", diz.

O peso é outra preocupação comum de mulheres que continuam a praticar a musculação. Esse temor só se justifica, contudo, quando a mãe engorda mais que 12 kg. Também há um mínimo: um ganho menor de 6 kg comprimente a saúde do bebê.

Embora na última década uma série de estudos tenha indicado benefícios da atividade física moderada para mães e bebês, na prática clínica muitos médicos ainda são receosos quanto ao tema.

"A hesitação dos obstetras em recomendar exercícios para as grávidas está enraizada em uma noção antiquada da gestação como um período de confinamento", disse Raul Artal, chefe do departamento de obstetrícia e saúde da mulher da Universidade de St. Louis (EUA), em artigo na revista "Ob.Gyn. News".

Esse cuidado tem um motivo, segundo a ginecologista Albertina Duarte Takiuti. "O ritmo respiratório durante a gestação e o sangue bombeado não são os mesmos."

"A prática intensa diminui a quantidade de oxigênio para o bebê e para a mãe", explica a obstetra Mara Diegoli, ginecologista do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Tudo é dividido por dois."

Mesmo com todas as ressalvas, especialistas dizem que a gestante pode até escolher uma atividade umpouco mais intensa, desde que ela já seja ativa. Isso, porém, não a exime de cuidados como maior hidratação e atenção à frequência cardíaca.

A musculação, por exemplo, pode ser estendida ao período gestacional, mas é preciso diminuir a carga, a intensidade e evitar exercícios que sobrecarreguem a coluna e a barriga.

"Mas a atividade aumenta a chance de traumas ósseos e musculares", adverte o ginecologista Corintio Mariani Neto, secretário geral da Sogesp (Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo).

Em academias maiores, a presença de preparadores físicos especializados em gestantes faz a mediação entre as necessidades das mães e a preocupação dos médicos. "Adaptamos os exercícios e controlamos a frequência cardíaca", diz Valéria Castro, preparadora física da academia Competition.

Mais moderada, a médica Ana Luiza de Aguiar, 33, não dispensou a musculação, mas diminuiu a carga e também faz uso da bola em alguns exercícios para não sobrecarregar a coluna. "Preciso me exercitar, fico mais disposta", conta.

Uma maior presença de grávidas "ativas" também levou ao crescimento da figura da "personal gestante", especialmente para mulheres com gravidez de risco. "Nesses casos, faço um trabalho com alongamentos e exercícios de fortalecimento com bola", explica Gizele Monteiro, educadora física que fez mestrado na área.

18/03/2014
Folha de S.Paulo
Jornalista: Monique Oliveira, Giuliana Miranda