Grandes redes de farmácia

Já com mais de 50% do varejo farmacêutico, as grandes redes continuam avançando de maneira agressiva e ditam as principais tendências para o setor

O desempenho das grandes redes de farmácias do varejo brasileiro é notório e causa forte impacto no andamento de todo o setor. Com apenas 7,14% das lojas instaladas em território nacional, somente as redes ligadas à Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) já têm 36% do total de vendas do mercado. Quando somadas as outras redes e às cadeias de supermercados, passam a representar 53% do varejo. Segundo estudos do IMS Health, há uma tendência de concentração, e isso só deve aumentar. 

Um dos movimentos mais recentes que comprovam essa maré de crescimento das redes foi a compra da Extrafarma – oitava maior do País em número de lojas e a nona em faturamento – pelo Grupo Ultra, detentor da Ultragaz e dos postos de gasolina Ipiranga. A operação de R$ 1 bilhão foi realizada por meio de uma troca de ações: o Grupo Ultra passou a deter 100% das ações Extrafarma, enquanto os atuais sócios da Imifarma receberam 2,9% das ações da Ultrapar.

Cada vez mais, as farmácias independentes encontram novas dificuldades para se manter competitivas diante no nível de profissionalização e poder de capital dos grandes conglomerados. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Educação Continuada (Cpdec) com 267 farmácias independentes e 148 filiadas a redes associativistas, descobriu-se que, em média, duas farmácias são fechadas com a chegada de uma grande rede e 56% perdem até 50% do faturamento. “As grandes redes têm inúmeras vantagens, como escala, maior acesso a informações sobre mercado, poder de negociação de preço, gerenciamento mais profissional”, enumera o presidente do Instituto Brasileira de Varejo (Ibevar), Claudio Felisoni D’Angelo.

Diante de tantos diferencias competitivos, o presidente da Abraframa, Sergio Mena Barreto, acredita que só exista uma maneira das farmácias independentes conseguirem competir com sucesso diante de uma grande rede. “A loja deve focar no mercado local e ser a melhor farmácia do bairro em que está. Ter os clientes cadastrados, saber o histórico do paciente, não deixar faltar o produto nem ter ruptura. Se ela é a melhor operação local, ganha da gente. Porque a rede, por princípio, é mais impessoal, pois atende muito mais gente”, afirma.
 
E preenchendo essa lacuna de atendimento mais próximo e personalizado ao consumidor, é possível sobreviver, como mostram as 50 mil farmácias independentes que operam atualmente nos Estados Unidos, um mercado ainda mais agressivo do que o brasileiro. “Lá a pressão das redes é muito maior do que aqui. O Walgreens, por exemplo, vende R$ 70 bilhões por ano”, relembra Mena Barreto.

Novos concorrentes 

Um novo modelo operacional de farmácia vem ganhando terreno sem parecer se intimidar com o poder das grandes redes. Para muitos especialistas, as chamadas farmácias populares, que investem em lojas com baixo custo operacional e preços extremamente competitivos, são uma das tendências mais promissoras do momento, pois se encaixa com a ascensão da classe C e atende ao tamanho do poder de consumo desses milhões de pessoas. A Abrafarma afirma ver com bons olhos este modelo de gestão, pois traz aumento do acesso da população aos medicamentos, mas faz algumas ressalvas.
“Se a loja do modelo popular está seguindo as regras do jogo, paga os impostos, vende produtos são de origem conhecida, remunera os empregados como deveria e consegue sobreviver dessa forma, tudo bem. Só temos que nos preocupar se a gestão for informal demais. Aí começa a gerar problemas passivo sanitários, trabalhistas e cria-se uma concorrência desleal”, alerta o executivo.

Sem sombra de dúvidas, o mote impulsionador desses modelos é preço, mas a gestão também é competitiva. O diretor-administrativo das drogarias UltraPopular, Paulo Roberto Oliveira da Costa, revela que o preço é muito competitivo, chega a ser até agressivo. “Normalmente é o melhor preço da cidade, mas a concorrência ganha com um modelo de gestão refinada. Essa farmácia deve ser uma farmácia de custo baixo, ou seja, o nível de gerenciamento é totalmente diferente daquilo que um farmacista tradicional está acostumado a ter ou fazer.” Ele explica que, com custos operacionais reduzidos, o modelo consegue oferecer descontos agressivos e o gerenciamento financeiro refinado permite uma gestão bem azeitada.

Outra tendência apontada por especialistas é a chegada de redes estrangeiras ao País. Estima-se que o primeiro movimento tomado pela CVS Caremark na compra da Onofre seja o início de uma série. Mas, ainda que movimentem muito mais dinheiro do que as farmácias de modelo popular, as redes estrangeiras parecem causar menos preocupação. “Os gringos que têm que ter medo do brasileiro. O operador local conhece muito melhor o negócio que qualquer estrangeiro. Até mesmo por isso, a CVS comprou a Onofre e manteve à frente da operação os irmãos Arede”, destaca Mena Barreto.

O vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Mercado e Consumo (Ibevar) e diretor da UBS Escola de Negócios, Eduardo Terra, também vê com tranquilidade essa primeira chegada de uma empresa estrangeira ao varejo brasileiro. “Como ela veio por meio da Onofre, acho que o impacto não será tão grande, porque já sabemos o que a Onofre faz. Além disso, há diversos entraves regulatórios no Brasil que impedem que a CVS seja a mesma que é lá fora. Então, não a vejo como grande potência em um curto prazo. Mas para médio e longo prazo, é um ponto de observação”, analisa.
Para ambos os especialistas, as redes estrangeiras podem, inclusive, trazer benefícios ao varejo brasileiro, pois têm experiência de outros mercados, acesso à tecnologia e vivências de situações que ainda não fazem parte da realidade do País. Nos Estados Unidos, por exemplo, 95% do que a CVS vende é pago por terceiros – governo, plano de saúde – e não pelo cidadão. “O estrangeiro tem essa expertise que nós não temos. Como fazer para implantar um sistema desse no Brasil para fazer com que o plano de saúde possa custear o medicamento e o governo tenha uma plano de assistência universal?”, questiona Sergio Mena Barreto, da Abrafarma.

Polêmicas no ar 

Um dos benefícios que podem ser obtidos com a chegada de redes estrangeiras ao Brasil é obter uma nova visão e depoimentos embasados sobre algumas questões que rondam o varejo farmacêutico. Um delas é a respeito da prescrição farmacêutica, recentemente, regulamentada por meio da Resolução 586/13, do Conselho Federal de Farmácia (CFF). De acordo com Mena Barreto, a medida ainda é tímida, mas ajuda aproximar o Brasil de mercados mais maduros, onde o papel do farmacêutico é muito mais amplo e aproveitado pela população.
Nos Estados Unidos, por exemplo, caso um paciente chegue à farmácia se queixando de efeitos colaterais desagradáveis devido ao uso de polimedicação, o farmacêutico é autorizado a mudar a dosagem de algum medicamento ou, inclusive, orientar que um deles deixe de ser ministrado. Também dentro das farmácias americanas é possível renovar receitas de medicamentos contínuos, sem a necessidade de visitar o médico.

“Prescrever Medicamento Isento de Prescrição (MIP) para mim é chover no molhado, mas, mesmo assim, é importante. Hoje, o cidadão chega à loja querendo uma orientação e o farmacêutico não tem coragem de indicar, mesmo sendo MIP. A resolução vem para fortalecer a figura do farmacêutico”, apoia Mena Barreto. “Se, a partir da resolução do CFF, você começar a dar ao farmacêutico o papel que ele deveria ter, ele servirá como proteção tanto do médico quanto do paciente. Aqui a gente não faz Atenção Farmacêutica como deveria, porque tem todo esse problema do legal, da pressão do médico”, complementa.

Já Cláudio Felisoni de Ângelo, presidente do Ibevar, enxerga a prescrição farmacêutica como uma medida que trará tanto pontos positivos quanto outros de atenção. “Vai exigir que se coloque pessoas mais preparadas na farmácia, pois o uso de medicamentos deve respeitar aspectos rigorosos. Mas, ao mesmo tempo, é uma oportunidade de aproximação com o consumidor.”

A interferência de redes estrangeiras também pode servir para exercer pressão sob outro assunto, de interesse tanto de redes quanto de independentes: a venda de produtos de conveniência dentro do espaço das farmácias. Mundo afora a prática é comum e indica que a convivência entre produtos de saúde com outros artigos alheios pode não ser prejudicial como defendem as autoridades brasileiras.

“Eles têm toda uma experiência de anos e depoimentos de como esses produtos são importantes para aumentar a receita da farmácia. Tenho dito para o Conselho Federal de Farmácia (CFF): Como por lá um farmacêutico ganha US$ 10 mil e aqui ganha US$ 1 mil? Se você tiver uma loja que vende mais produtos com melhor margem, você não teria condição de pagar melhores salários?”, questiona Mena Barreto.

A hora do HPC

A preocupação com a venda de outros artigos em farmácias pode ser explicada pela queda de rendimento na venda de medicamentos. O varejo continua apresentando números expressivos de crescimento, mas, atualmente, os responsáveis pelos bons números são, basicamente, os produtos de higiene e beleza, incluindo os dermocosméticos e produtos premium, de valor agregado alto. Até agosto deste ano, as vendas das associadas à Abrafarma cresceram 12,88%, sendo 10,70% em medicamentos e 17,87% não medicamento. “É um crescimento sensacional. Qual o setor da economia que está conseguindo crescer 17% ao ano?”, reflete Mena Barreto.

Uma das explicações para a queda no desempenho da venda de medicamentos, segundo o executivo, é a alta da inflação em setores essenciais, como o de alimentos, em que o consumidor não pode deixar de gastar. Mas por que a inflação não impactou da mesma forma os produtos de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (HPC)? 

“O crescimento dessa categoria de produtos é consequência da dilatação da classe média brasileira, que passou a ter renda para investir em cuidados pessoais. Esses produtos passam a fazer parte da cesta mensal, enquanto medicamentos variam, pois dependem das condições clínicas das pessoas”, explica Felisoni, do Ibevar.

Nesse cenário, de preocupação com a beleza e bem-estar, a mulher passa a exercer um papel fundamental dentro da farmácia, de acordo com Mena Barreto. “Nosso negócio é basicamente voltado para o público feminino. Cerca de 70% das vendas diretas são feitas a mulheres e os 30% dos homens que vão à farmácia foram mandados lá por elas. Ou seja, 100% do poder de decisão é feminino”, acredita. “E a menina que encontra aquele xampu que dá certo para o seu cabelo não deixa mais de usá-lo. Passa a comprá-lo mensalmente, por isso esse tipo de produto sofre menos.” 

Mesmo diante de um crescimento tão expressivo, o professor Eduardo Terra, do Ibevar, aconselha cautela aos varejistas no momento de investir no sortimento de HPC. “O medicamento continua sendo o gerador de fluxo dentro de uma farmácia. Acho que lojas que investirem demais em perfumaria podem até acabar perdendo o foco. O consumidor ainda pensa na farmácia como um local que vende medicamento, em que também é possível comprar perfumaria. É uma tendência, mas deve ser explorada com bastante cuidado.”

A reviravolta dos medicamentos

Enquanto 2013 o ano não foi favorável à venda dos medicamentos, os próximos anos devem ser diferentes. Dez novos produtos de referência, que movimentaram cerca de R$ 760 milhões nos últimos 12 meses, terão suas patentes vencidas até o final deste ano, segundo a Associação das Indústrias de Medicamentos Genéricos (Pró Genéricos). Com isso, a expectativa do setor é de, pelo menos, dobrar o consumo dos medicamentos – o que representará uma receita de cerca de R$ 1 bilhão e uma expansão de 10% da indústria de genéricos.

“As patentes vão caindo e isso gera mais adesão ao tratamento. Se o medicamento cai para um nível mais barato, o consumidor substitui mesmo. É 40% mais barato, no mínimo, então faz toda a diferença para quem vai utilizar todo dia. Acredito que já sentiremos o reflexo dessas quedas de patente no ano que vem”, aposta Mena Barreto.

Mas antes que essa injeção de ânimo chegue, a Abrafarma espera melhorar os índices de venda de medicamentos ainda neste ano. Entre outubro e dezembro, a expectativa é que se alcance um crescimento de 13% a 14%. “Os outros números são todos bons, alinhados com o que a gente pensou. A única nota negativa é a queda do e-commerce, que caiu 2% nos primeiros sete meses do ano. Acho que a resposta a isso é o crescimento de 17% dos não medicamentos. Para esses produtos, a pessoa prefere ir à loja ver as novidades e experimentar”, analisa Mena Barreto.

13 de Novembro de 2013 
Flávia Corbó
Edição 252 - Indústria Farmacêutica