Antibiótico: de mocinho a vilão

Campanhas mundiais alertam para os perigos das superbactérias.

O crescimento de bactérias multirresistentes uniu ontem a comunidade médica das mais diversas partes do mundo.

Estados Unidos, China, Europa, Austrália, Canadá, Equador e México responderam ao chamado da ReAct, organização global contra a resistência aos antibióticos, e deram início a uma campanha de conscientização sobre o uso indiscriminado do medicamento.

O assunto se torna de extrema importância uma vez que especialistas alertam que, num futuro próximo, as taxas de mortalidade por infecções bacterianas podem retornar às apresentadas no início do século XX.

— Perderíamos a possibilidade de oferecer tratamentos que hoje são o padrão. Transplantes ou quimioterapias para câncer funcionam apenas quando o paciente pode ser protegido de infecções — disse Otto Cars, professor da Universidade de Uppsala, na Suécia, e diretor da ReAct.

— A dimensão do problema é muito maior do que havíamos entendido.

A Organização Mundial da Saúde vem mencionando o tema como sensível desde 2000.

Como os antibióticos são a base da medicina moderna, a entidade teme que simples infecções de ferimentos ou doenças como pneumonia, difteria, disenterias e escarlatina, por exemplo, voltem a se tornar tão mortais quanto já foram.

O alerta também foi feito pela Academia Americana de Pediatria que, em comunicado, pedia mais cuidado na avaliação de crianças com infecções de ouvido, coriza e dor de garganta antes de receitar antibióticos.

De acordo com o Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, a cada ano pelo menos dois milhões de americanos são infectados com bactérias resistentes a antibióticos e 23 mil morrem como resultado disto.

— Nem sempre é fácil determinar qual o tipo de infecção.
Podemos fazer cultura ou teste de urina que, em geral, tem um diagnóstico mais fácil, mas o resultado leva de dois a três dias — explica Marcos Junqueira do Lago, membro do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e professor adjunto da UERJ. —

O médico tem que lidar com isso e, diante de um quadro clínico sugestivo e da pressão da família pela melhora da criança, acaba tratando com antibiótico.

RESTRIÇÕES NO BRASIL

De acordo com Lago, cerca de 90% dos casos de infecções respiratórias são por vírus e a utilização de antibióticos seria necessária para no máximo 20% dos pacientes.

No entanto, de 30 a 40% das crianças acaba utilizando o medicamento.

Além de não ajudar a combater a infecção em questão, o uso sem necessidade gera as chamadas superbactérias.

— Na verdade não é a criança que fica resistente.

A bactéria faz parte da comunidade e convive com todos nós — ressalta Lago.

— Conforme usamos antibióticos demais, jogamos no ambiente bactérias resistentes.

No Rio, por exemplo, a resistência ao estafilococos cresceu, enquanto em outras áreas do Brasil não vemos isso.

— Infecções por bactérias multirresistentes tem sido mais frequentes — afirma Patrícia Figueira Martins, chefe da Internação Pediátrica do Hospital Icaraí.

— Em geral a resistência é maior para antibióticos utilizados em infecções respiratórias.

Para conter o problema, a Anvisa restringiu a compra da droga em farmácias.

Desde 2010, ela só pode ser comprada com receita médica. Apesar do controle, o Brasil ainda não possui dados gerais, pois as farmácias não tinham que se reportar à agência.

Desde abril deste ano, o antibiótico entrou na lista do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados, que prevê notificação em caso de venda.
19/11/2013
O Globo
Jornalista: Maria Clara Serra