É gostoso, e faz bem

A palavra final da ciência: alimentos como o chocolate, café e o vinho, desassociados a culpa, não são bons apenas para a alma, mas também para o corpo.

A partir do momento em que um cidadão pré-colombiano, ao redor de 1500 a.C.. experimentou pela primeira vez o chocolate líquido feito da amêndoa do cacau, a humanidade nunca mais foi a mesma. O chocolate seduziu imperadores, alimentou exércitos e movimentou economias. 

A maior reviravolta, no entanto, ocorre agora, com uma série de descobertas que levam a uma doce constatação: além de gostoso, o chocolate torna a vida mais longa e saudável.

O extraordinário efeito proporcionado pelo chocolate à saúde é fruto, sobretudo, dos chamados compostos fenólicos. E, boa notícia, essas substâncias não se encontram apenas no cacau. Estão presentes em alguns dos grandes prazeres da humanidade: na taça de um bom vinho, numa xícara de café fresquinho, num prato de feijão fumegante ou em um azeite extravirgem. Abundantes nas sementes e na casca de frutos e vegetais, os fenólicos estão envolvidos nos processos mais elementares da natureza. Participam da fotossíntese, dão cor às plantas e protegem contra agressões externas.

 Para os seres humanos, os benefícios dos fenólicos são tão amplos quanto surpreendentes, e novidades não param de ser anunciadas. O número de estudos acerca do impacto de alguns desses compostos sobre o metabolismo humano, segundo o PubMed. o maior banco de dados de pesquisas médicas do mundo, saltou de 500. em 2003, para mais de 5 000. no ano passado.

A maioria dos trabalhos ilumina o mais comum dos fenólicos, os flavonoides. Dos cerca de 8000 fenólicos já descritos pela ciência. 6000 pertencem à categoria dos flavonoides. Uma ampla e rigorosa pesquisa feita pelo Instituto Karolinska. na Suécia, divulgada recentemente. avaliou o impacto do chocolate, e suas substâncias salutares, na ocorrência de problemas cardiovasculares. Foram avaliadas 33 372 mulheres, de 49 a 83 anos. e 37 103 homens, entre 49 e 75 anos. Os voluntários foram acompanhados por dez anos, durante os quais responderam a questionários minuciosos sobre os hábitos de consumo do chocolate. Ao término da pesquisa, brotou uma constatação: comer 63 gramas de chocolate por semana (o equivalente a quatro bombons pequenos) resulta em queda de 20% nas taxas de derrame. Tais resultados podem ser comparados às benesses do exercício físico para o organismo. "Os flavonoides atuam diretamente nos mecanismos responsáveis pelo bom funcionamento do sistema cardiovascular", diz Raul Dias dos Santos, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor da Sociedade Internacional  de Aterosclerose.

O Brasil tem sorte com a dieta. A fabulosa variedade - resultado da contribuição do cardápio indígena, à base de peixes, frutas e vegetais, da alimentação importada da África e da gastronomia portuguesa  é boa e faz bem. 

Nesse aspecto, o do prato a serviço da saúde, os brasileiros sentam-se melhor à mesa que os americanos das grandes cidades, cujos hábitos estereotipados pressupõem doses cavalares de hambúrguer, batata frita e cachorro-quente (embora nem todos comam mal, é evidente). Vamos melhor também quando nos comparamos aos alemães, com o joelho de porco, o chucrute e o assustadoramente calórico cozido de batatas.

 No embate de talheres com os franceses, aí, sim, o jogo é mais complicado - dá-se o nome de "paradoxo francês" ao bom estado de saúde da população, com taxas reduzidas de problemas cardíacos e de obesidade, e a magreza das mulheres, em um país que come muito e adora frequentar restaurantes. O bom prontuário médico da França é resultado, segundo os levantamentos científicos, do consumo preferencial de vinho (um antioxidante poderoso, inimigo dos radicais livres) e de azeite virgem e extravirgem (aliados do incremento do bom colesterol).

A lista de benefícios é grande: Antioxidação. Os flavonoides impedem a ação dos radicais livres, as moléculas tóxicas associadas ao envelhecimento. Fazem isso de duas formas. Na primeira, eles se ligam a essas partículas, desativando-as. Na outra, anulam as enzimas responsáveis pela formação dos radicais livres.
Redução do colesterol ruim. Esses compostos fenólicos estimulam o fígado a captar o excedente no sangue do colesterol LDL, o danoso, onde é aproveitado pelas células hepáticas. Também inibem a enzima HMG-CoA redutase, substância essencial na produção de LDL pelo fígado. O efeito dos flavonoides, nesse caso, equipara-se ao das estatinas. classe de medicamento de primeira escolha no tratamento do colesterol alto. Aumento do colesterol bom. Na ponta oposta, os flavonoides estimulam a produção de HDL, o colesterol positivo. Fazem isso ao incrementar a síntese de apolipoproteína Al. proteína que rege a formação de HDL.

Preservação dos vasos sanguíneos.

Os flavonoides têm ainda ação anti-inflamatória, evitam a formação de trombos e mantêm a saúde da parede das veias e artérias.

Com tais características, o chocolate pode ser um ótimo aliado na prevenção das mais diversas condições. Do diabetes à perda de memória, do câncer à manutenção do peso, dos sintomas da menopausa ao envelhecimento da pele. Cai por terra, portanto, o mito de que chocolate dá espinha. Isso tudo, é claro, se for consumido com parcimônia. Chocolate é alimento super calórico.

Ainda não se chegou a um consenso sobre a quantidade adequada a ser consumida de modo a tirar todas as suas vantagens, sem o risco de que se transforme em vilão da boa saúde. Enquanto um parâmetro não é definido, os nutricionistas costumam dizer que 20 gramas de chocolate por dia (ou uma barra pequena) é o suficiente, sem que haja um aumento significativo no total calórico da dieta. Os estudos sobre as vantagens dos flavonoides para o organismo são feitos com os mais diversos tipos de chocolate. Mas o que se tem por certo é que, quanto maior for a concentração de cacau, maior será a quantidade de flavonoides. Ou seja, o chocolate ideal é o mais amargo.

Um tablete desse tipo com 45 gramas (ou seja, acima de 65% na concentração de cacau) possui, em média, 54 miligramas de flavonoides. Na versão ao leite (em média, 25% de cacau), essa quantidade chega a, no máximo, 13 miligramas. Há um mês. a Comissão Européia permitiu que um dos mais respeitados fabricantes de chocolate no mundo, a suíça Barry Callebaut, imprimisse no rótulo de seu chocolate amargo a informação de que 10 gramas diários podem ajudar a circulação sanguínea. E o que dizer do chocolate branco, em cuja formulação não entra cacau? Ele só engorda. Ponto.

Os flavonoides foram descobertos por acaso, em 1938. Ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 1937. o fisiologista húngaro Albert Szent-Gyorgyi, buscava melhorar o tratamento dos pacientes que sofriam com sangramentos subcutâneos. Usava em sua experiência dois tipos de vitamina C, recém-identificada por ele, ambos extraídos da casca do limão.

 O primeiro composto era o nutriente em estado bruto; o segundo, sua versão purificada. Ao administrar as duas substâncias a seus pacientes. Szent-GyOrgyi percebeu que a vitamina C pura, para sua surpresa, não controlava o sangramento. A outra, no entanto, teve efeito contrário. A responsável era a citrina ? como se veria quase uma década depois, um flavonoide.

Por causa de seu efeito de permeabilização sobre as paredes dos vasos sanguíneos, tornando-as mais resistentes à saída do sangue, o composto recebeu o nome de vitamina P. Nos anos 50, a ciência comprovou que a citrina não era urna vitamina. Dessa forma, ela foi renegada pelos médicos e nutricionistas. Com as pesquisas acerca da saudável dieta mediterrânea, os estudiosos conseguiram demonstrar que por trás dos benefícios de uma alimentação rica em frutas, vegetais, azeite extra-virgem e vinho estavam os flavonoides. A máxima do grego Hipócrates, escrita no século V a.C., "faça do alimento o seu medicamento", nunca foi tão atual.


07/10/2013
Veja
Jornalista: Adriana Dias e Natalia Cuminale