A vez dos medicamentos biológicos

Imagine um grupo de medicamentos que pode estar dentro de seu próprio corpo ou de outro animal. Não custa nada lembrar que ainda em 1885, Louis Pasteur teria curado uma criança atacada por um cão raivoso.

Imagine um grupo de medicamentos que pode estar dentro de seu próprio corpo ou de outro animal. Não custa nada lembrar que ainda em 1885, Louis Pasteur teria curado uma criança atacada por um cão raivoso. A descoberta: o soro era uma substância produzida em um sistema biológico vivo.
Agora, mais de 100 anos depois, o mundo vive a revolução dos biofármacos ? medicamentos biológicos obtidos por meio de fontes ou processos biológicos.
A indústria farmacêutica obtém o princípio ativo desses medicamentos através do emprego industrial de microorganismos. Células que foram modificadas geneticamente também entram na lista. É um maravilhoso mundo novo descoberto pelos cientistas. ?Existe muita literatura médica e farmacológica sendo produzida. E cada problema pode ter um biofármaco específico", diz o farmacêutico Luis Carlos Barbosa.
Hoje, os medicamentos biológicos podem e devem ser utilizados no tratamento de diversas áreas, caso do câncer, doenças autoimunes e inflamatórias, insuficiência renal crônica, hemofilia, hepatites, dentre outros.
?Biofármacos são substâncias terapêuticas que interagem com proteínas humanas, produzidas somente por sistemas biológicos vivos e emprego de biotecnologia. São moléculas complexas, de difícil caracterização e replicação?, informa Florentino Cardoso, presidente da Associação Médica Brasileira.
Mercado O governo federal tem realizado aportes na compra destes medicamentos. O mercado brasileiro pode chegar a R$ 35 bilhões de gastos com biofarmácos em 2016. É, portanto, área em franca expansão.
O uso das substâncias é complexo e exige inúmeras pesquisas científicas. Para cada doença, e são muitas, encontra-se uma solução. Tome o caso da anemia na insuficiência renal crônica. O paciente perde a capacidade de produzir hemácias ou glóbulos vermelhos do sangue como quando estava em uma situação de normalidade.
A anemia está presente em parte significativa destes doentes. E o motivo seria a ausência de eritropoetina (EPO), que serviria para manter concentração normal de hemoglobina " responsável pelo transporte de oxigênio no sistema circulatório.
Esse fator de crescimento EPO já foi isolado no plasma de uma ovelha anêmica. E nos últimos anos ovários de ramsters serviram de suporte para o desenvolvimento da substância. A ciência não parou: a indústria investiu na pesquisa de eritropoetina recombinante, depois gastou anos no aperfeiçoamento de uma nova molécula (Nesp) e agora o tratamento com medicamentos recentes tem surtido efeitos.
Insuficiência renal Conforme estudos divulgados pela comunidade científica, pacientes diabéticos com insuficiência renal crônica, por exemplo, aumentaram os níveis de hemoglobina em 20%. Nos estudos com darbepoetina, ocorreu uma diminuição na necessidade de transfusão de sangue em 9,7%. Todavia, nos pacientes com histórico de câncer, ocorreu um leve aumento na mortalidade relacionada à doença.
Resumo da ópera: é uma substância promissora que exige mais estudos e, caso a caso, conforme a indicação médica, pode ser usada. Não se deve jamais esquecer, contudo, que ao lado do benefício pode existir também um dano. Órgãos de vigilância sanitária dos Estados Unidos e Europa informam que desde 1995, quando começaram a analisar mais detalhadamente as substâncias, um em cada quatro biofármacos mereceu alguma medida de segurança.
A engenharia química Leda Castilho diz que os produtos ainda são muito caros, em sua maioria importados. ?Não temos ainda uma cobertura da população, em termos do suprimento desses produtos muito caros?, diz. A pesquisa de Leda, na Fiocruz, tem impulsionado a área. Ela estuda cultivo de células de mamíferos para serem purificadas.
Releitura antiga da Ciência Histórico de pesquisa não é novo por mais que pareça alguma conquista da modernidade ou da pós-modernidade aplicada à Ciência, o uso de biofármacos é uma inovação ?antiga?. Demoramos até demais a avançar neste segmento.
Se em 1885, Louis Pasteur usou soro no combate da raiva, Frederick Banting, em 1922, na Universidade de Toronto, utilizou insulina retirada do pâncreas de um animal e tratou um paciente com diabetes.
Três décadas depois, M. Raben utilizou hormônio do crescimento ? retirado de um corpo humano autopsiado, através da extração da hipófise ? e tratou um menino de 17 anos com a deficiência do hormônio. Ele pegava cadáveres e retirava o hormônio até que a agência de saúde americana impediu. Tempos depois, o mesmo tratamento apareceu patenteado, na indústria.
Em 1982, a comunidade científica passou a usar insulina recombinante humana. Era o primeiro medicamento desenvolvido via engenharia genética.
Hoje, o medicamento biológico tem sido testado em lúpus eritematoso, psoríase, doença de Crohn, etc. Não para de crescer a aplicabilidade.
Encontro O tema do primeiro encontro da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), realizado no mês de agosto, diz respeito ao ?Mercado de Biofármacos: tendências e nichos estratégicos para indústria nacional?.
?O mercado de biofármacos é a grande fronteira hoje. Nós temos empresas brasileiras com musculatura para entrar nesse nicho?, diz Mauro Borges Lemos, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

08/09/2013

Diário da Manhã Online