O genérico e seu original

O medicamento genérico é sucesso de produção e de vendas no Brasil, mas não conseguiu se livrar totalmente da mesma síndrome que ainda toma o mercado de autopeças: o de que? se não for da marca original, não é a mesma coisa?

Isso ocorre, em parte, porque persiste certa resistência dos médicos brasileiros em prescrever genéricos. Para Gerson Pianetti, presidente da Comissão da Farmacopeia Brasileira e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não há fundamento para essa desconfiança.

São raros os casos em que não há resposta ao tratamento?

Essa resistência é pequena no Sudeste e maior no Nordeste. Pianetti atribui o comportamento desse segmento de médicos a sua maior suscetibilidade ao lobby dos grandes laboratórios farmacêuticos, que nunca engoliram a competição que lhes fazem os genéricos?

É o tal processo de convencimento e fidelização colocado em prática por grandes indústrias, que nem sempre se baseia na qualidade do medicamento, mas em benefícios proporcionados aos médicos, como presentes e viagens?

Para combater a cisma de que a resposta do genérico aos tratamentos é inferior, Pianetti defende maior atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), organismo encarregado de fiscalizar o setor, depois do início de comercialização.

Para que um medicamento obtenha registro e autorização para comercialização, os laboratórios devem apresentar alentados dossiês que descrevam minuciosamente fórmulas, etapas de produção e controle de qualidade. Em seguida, o produto é submetido a testes de bioequivalência. No entanto, depois de expedida a autorização, o acompanhamento da Anvisa para assegurar que o produto em oferta nas farmácias é rigorosamente equivalente ao do projeto original é feito por amostragem e sem periodicidade definida, por meio do Programa Nacional de Verificação da Qualidade de Medicamentos (Proveme).

O diretor-presidente da Anvisa, Dirceu Barbano, admite o problema, mas argumenta que a instituição precisaria de mais estrutura e de pessoal para fazer esse trabalho. Ele afirma que todo o processo de aprovação leva, em média, 18 meses. Metade desse tempo, reconhece ele, é tomado para suprir deficiências de informações passadas pelas farmacêuticas. Cerca de 60% dos processos são iniciados sem que o fabricante apresente a documentação completa, prática que cumpre apenas a função de guardar lugar na fila. ?O ideal seria um período não superior a oito ou, no máximo, dez meses. Não convivemos bem com esse prazo longo demais?
Também admite que o ?termo genérico não ajuda porque acaba passando a ideia de segundo lugar, de cópia de outro produto?. Mas ele assegura que as exigências impostas às empresas no processo de registro dão ?absoluta garantia da segurança?

Pianetti sugere que a agência ao menos incentive os médicos a encaminhar correspondência à Anvisa cada vez que tiverem a percepção de que alguma coisa no medicamento genérico deixou de funcionar. / COLABOROU DANIELLE VILLELA CONFIRA: Os números. As vendas totais do setor farmacêutico cresceram 6,3% no primeiro semestre de 2013 em relação ao primeiro semestre de 2012, com faturamento de R$ 27,3 bilhões. Enquanto isso, as vendas de genéricos avançaram 23,5%, somando R$ 6,3 bilhões. É o que aponta o balanço da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos (PróGenéricos).

A fatia aumenta. Desde a sua regulamentação, em 1999, os genéricos conquistaram 27,3% de participação do mercado brasileiro. É equivalente à observada na França e na Suíça, mas ainda tímida se comparada à dos Estados Unidos e Grã-Bretanha, de cerca de 60%, como aponta a BCC Research.

Fila de espera. Dados da Anvisa mostram que o número de genéricos aprovados quadruplicou nos últimos dez anos. Hoje, existem 3.495 registrados e outras 1.721 solicitações aguardam aprovação. O mercado brasileiro é dominado por dois laboratórios: EMS Pharma (cerca de 25%) e Medley (12%)

03/08/2013
O Estado de S.Paulo
Jornalista: Celso Ming